sábado, 9 de junho de 2012

Alice faz um ano


 Obrigado, filha! Você é ótima companhia, você dá trabalho pra caramba, mas isso é o que menos importa. Já esqueci das noites que não dormi, acho que foi só uma. Alice, você enche minha vida de emoção, de novos sentidos, você remexe o baú da minha memória, que já estava empoeirada, para não dizer petrificada e eu nem sabia. Você me faz lembrar de coisas interessantes que já vivi e que sozinho eu não recordaria. Você me faz mais jovem, reacende a chama da curiosidade no meu peito desanimado. Alice, você vale a pena, todo dia, contra todas as evidências, você me prova que a vida vale a pena. Obrigado, filha, não foi sem dor, não foi sem sacrifício, mas hoje nós nos conhecemos bem, pavimentamos o caminho da felicidade e já estamos caminhando por ele, de mãos dadas, nossas vidas atadas, não sei mais o que é viver sem você. Sem você e sem sua mãe, pois agora somos três, somos uma família, eu aprendi, na prática, que o amor se multiplica. Amo vocês duas. Bem, vim aqui no blogue só para postar as fotos que já coloquei no facebook, então resolvi deixar um texto também para contextualizar e saiu tudo isso aí. Beijos, boa noite.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Enfim, nascemos

 Comecei a escrever o texto que segue no terceiro dia após o nascimento da Alice e levei quase um ano para me libertar dele.  


  Eu estava num corredor amarelo, atônito. Do outro lado do vidro, a Alice, rosa e brilhante como só ela, apesar de seus poucos minutos de vida, sabia exatamente o que fazer, enquanto eu, completamente perdido, sentia que tudo o que já vivi e experimentei não me serviria de nada.
  Onde estaria minha mulher, minha esposa, que deixei com as entranhas abertas sob os olhares atentos de quem conversava sobre trivialidades da vida? Presenciar o parto cirúrgico não foi nada agradável, nada mágico, foi especial, sim, foi tocante, mas também foi bruto, sanguinolento, visceral, chocante.
  E essa reforma no hospital, nascer sob os transtornos da construção civil, que coisa! Estavam quebrando o piso no andar de cima, com marretadas ensurdecedoras. Eu não poderia imaginar uma trilha sonora melhor, tão perturbadora. As marretadas soavam como tambores, com suas batidas cardíacas, tremiam fundo no corpo, vibrando os recônditos onde suponho estar alojada a alma. 
  Minha mulher, deitada na maca, com os paramentos, não sorria, como eu estava acostumado, tampouco se emocionava cheia de ternura, como gostamos de ver e imaginar esse momento. Quando ela se desdobrou em duas, eu já não sabia mais de qual deveria cuidar, qual deveria olhar, ou, até mesmo, se deveria olhar para o relógio na parede e registrar com exatidão o momento, ou ainda, perseguir o pediatra para que não trocasse minha filha por outro bebê.
  Alice veio ao mundo perfeita (dias depois entenderia que era um feto perfeito, a pessoa estava só começando), aguardava um alívio para esse tão esperado momento, mas o alívio foi apenas uma gota no novo oceano nos envolveu.
   Alice não nasceu sozinha, junto com ela nasce um pai (e uma mãe, mas isto é outra história). Para nascer um pai, renascer uma nova pessoa, há de morrer algo. Não há nascimento sem a correspectiva ideia de morte. Morre a semente para nascer a flor; morre o ovo para nascer o pinto; a lagarta, para a borboleta.
 O nascimento é algo estonteante. Sente-se uma punção, um corte, um soco, que vai fundo na pele, no coração, na alma. É o chão que lhe falta. Algo que se perdeu, mas não sabemos o que é. Tampouco temos tempo de sentir a falta ou de chorar pela perda, o vazio da morte é muito rapidamente preenchido de vida. A vida em seu estado mais puro, bruto e inquietante.
 É tão romântico ver um pai, em obra de ficção, dizer que o dia mais feliz da sua vida foi o dia do nascimento da sua filha. Acontece que, na realidade, esse dia também é o mais terrível, o mais desesperador. Muita emoção e transformação concentrada em pouco tempo. Desperta, ao mesmo tempo, a racionalidade das responsabilidades e as reações instintivas das paixões.

sexta-feira, 9 de março de 2012

9 dentro, 9 fora



 Alice completa hoje 9 meses. Acabei de fazer a foto aí. Vamos pesá-la e medi-la segunda-feira, mas esses números de crescimento não contam tudo, há que ver também o desenvolvimento. Alice já dorme sozinha, basta colocá-la no berço do jeito certo e na hora certa. Está atenta a tudo, quer pegar, olhar, lamber, passear e já folheia livros! 
  Ela entende muita coisa, certamente mais do que nós imaginamos. Dizemos "olha o passarinho", ela então olha para o alto, para o céu. Ouve os passos da mamãe, já olha para a porta do quarto, quando a mamãe chega, Alice abre um sorriso que contagia a todos. 
 Alice parou de mamar no peito. As muitas mamadas diárias foram sumindo aos poucos e já faz uma semana que vai só de mamadeira de aptamil 2. Mas o começo não foi fácil, colocávamos a mamadeira na boca do bebê, que dava uma sugadinha, já percebia que era produto industrial e virava a cara. Pronto! Não dava para enganar mais, podíamos enrolar a mamadeira num pano colorido, mas ela nem experimentava mais. Não sabíamos do que ela não gostava, provavelmente o gosto, não podia ser o bico da mamadeira, pois já estava acostumada a mamar suco nela. Foram quase duas semanas desse jeito, tentando e o bebê recusando, a mamãe ficava desesperada, parecia que teria de amamentar no peito para sempre, eu tinha que acalmar a sua angústia, lembrando que temos de tratar bebês (e todas as pessoas), com calma, que levamos tempo para nos acostumar com mudanças, que a primeira mamadeira de suco de laranja lima Alice não tomou nenhuma gota e hoje ela toma até suco de carambola.
  Tentamos outras marcas de leite (na verdade, o nome é fórmula infantil, pois são tantas alterações industriais no produto que não dá para chamar de leite), Mamãe já estava apelando para a televisão, que atrai a atenção do bebê, mas mesmo assim ela não mamava. Foi no final de janeiro, quando a mamãe experimentou bater o leite com uma fruta, que Alice tomou a mamadeira inteira. Mamãe ficou tão feliz que me ligou no trabalho para contar! Depois de tanto oferecer diversas marcas de fórmula infantil, Alice pegou gosto pela mamadeira, hoje, agita braços e pernas quando vê o mamá chegando. Parece que o segredo era diluir a fórmula em um pouco mais de água do que o indicado. Pudera! Quando vi a mamãe preparando a fórmula infantil, que tem um dosador (parece mais uma panelinha do que uma colher), fiquei assustado, pois ela enche o dosador até transbordar, faz uma montanha de pó. 
  Alice ainda não engatinha, nem parece ter vontade de engatinhar. Colocamos ela de bruços, numa superfície dura e macia, ela firma os braços e fica, de cabeça erguida, olhando a situação. Até alcança algum objeto mais próximo e, diversas vezes, rola para um lado e para o outro, mas não sai por aí engatinhando. Já aconteceu de engatinhar para trás! Só um pouquinho, é bonitinho.
 Já ouvi muitos pais dizerem que seu filho não engatinhou, que andou direto. Sempre ouvi com respeito, mas no fundo achava estranho um bebê não engatinhar e essa história de andar direto me parecia um consolo. Mas agora me parece que isso realmente pode acontecer, o desenvolvimento humano não segue um roteiro rigorosamente pré-determinado. São muitas experiências e individualidades. É um absurdo cobrar do bebê metas de desenvolvimento. 
 Pois então, Alice parece que vai andar direto. Claro que não sabemos o que virá, mas é nítido que ela gosta de firmar as pernas. Muitas vezes, queremos colocar ela sentada, mas ela estica e endurece as pernas que só dá para colocar ela de pé.
A mamãe costuma segurar ela pelos bracinhos e Alice dá seus primeiros passos. Eu chego até a ficar preocupado se não estamos forçando demais o bebê, pois aqui em casa somos contra o andador, mas Alice tem mostrado força nas pernas. Vou perguntar para a pediatra. Pena que não deu para escrever sobre o dentinho. Abraços, que vou trabalhar!